
Como Influenciam as Eleições no Brasil
Os Algoritmos das Redes Sociais fazem parte da rotina de milhões de brasileiros. Quando alguém abre o TikTok, Instagram, Facebook ou YouTube, não encontra uma sequência aleatória de publicações. Existem sistemas que selecionam conteúdos, organizam o que aparece primeiro e recomendam vídeos, notícias e opiniões com base em diferentes sinais do comportamento dos usuários.
Isso também afeta a política. Em uma eleição, a disputa não acontece apenas entre candidatos, partidos e eleitores. Ela também acontece pela atenção das pessoas.
Aquilo que aparece repetidamente na tela pode influenciar quais assuntos parecem importantes, quais candidatos ganham visibilidade e quais informações quase nunca chegam até o usuário. Isso não significa que um algoritmo determine em quem alguém vai votar. O problema é mais complexo: as plataformas controlam uma parte importante da distribuição das informações que chegam aos eleitores.
Como os algoritmos das redes sociais influenciam o que você pensa sobre política
Imagine duas pessoas abrindo o TikTok durante uma eleição. Uma acompanha vídeos sobre segurança pública; a outra assiste principalmente a conteúdos sobre emprego e economia. É possível que elas recebam recomendações muito diferentes, mesmo vivendo na mesma cidade e acompanhando a mesma disputa eleitoral.
Isso acontece porque os sistemas de recomendação utilizam sinais como interações, tempo de visualização e interesses demonstrados para selecionar conteúdos. Cada plataforma possui seus próprios mecanismos, mas a lógica geral é parecida: tentar prever o que terá relevância para cada usuário.
Na prática, o feed não é uma janela neutra para o mundo. Ele é um filtro personalizado, construído segundo critérios definidos pelas empresas responsáveis pelas plataformas.

Esse mecanismo tem uma utilidade evidente. Diante de milhões de publicações, algum tipo de seleção é necessário. O problema é que aquilo que recebe destaque não corresponde necessariamente ao conteúdo mais importante, informativo ou confiável.
Uma publicação que provoca indignação, medo ou curiosidade pode atrair bastante atenção. Entretanto, isso não prova que o algoritmo tenha sido programado para favorecer determinado candidato ou ideologia. O ponto crítico está no modelo de negócio: plataformas que dependem da publicidade têm incentivos econômicos para conquistar atenção e manter as pessoas conectadas. Essa lógica pode entrar em conflito com a necessidade de um debate público bem informado.
Também precisamos diferenciar três fenômenos. Uma publicação aparecer espontaneamente no feed por recomendação algorítmica não é a mesma coisa que uma campanha pagar para exibir um anúncio político. E nenhuma dessas situações é igual à circulação de mensagens em grupos de WhatsApp, onde os próprios usuários encaminham conteúdos para outras pessoas.
No Brasil, essa distinção tem consequências jurídicas. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) estabeleceu restrições à recomendação algorítmica orgânica de conteúdos de perfis oficiais de candidatos informados à Justiça Eleitoral. A medida procura impedir que sistemas automatizados ampliem a visibilidade de determinadas candidaturas de maneira incompatível com as regras eleitorais.
A questão vai além da tecnologia. As grandes plataformas possuem poder econômico, dados sobre o comportamento dos usuários e controle sobre importantes canais de distribuição de informação. Ao mesmo tempo, pesquisadores e autoridades enfrentam dificuldades para observar integralmente como esses sistemas funcionam.
O problema não é afirmar que existe uma máquina secreta escolhendo o próximo presidente. É questionar quem controla os mecanismos que distribuem informações em uma sociedade democrática.
Eleições de 2026: quando a distribuição de conteúdo vira um problema democrático
As eleições brasileiras de 2026 oferecem exemplos concretos dos riscos envolvidos.
Em uma pesquisa sobre anúncios veiculados nas plataformas da Meta, o NetLab/UFRJ analisou 6.757 anúncios publicados durante o primeiro mês da campanha, entre 16 de agosto e 16 de setembro. Desse conjunto, 2.326 estavam relacionados ao processo eleitoral e às instituições responsáveis por sua condução. Entre esses anúncios, 1.586, 68,1% atacavam instituições ou levantavam suspeitas sobre a condução das eleições, segundo o levantamento.
O resultado não significa que todos esses anúncios fossem necessariamente ilegais, nem demonstra que tenham alterado votos. Ele mostra a presença expressiva de conteúdos que questionavam as instituições eleitorais dentro do recorte analisado. A pesquisa também apontou problemas de transparência: parte dos anúncios não foi classificada como política pela própria Meta, dificultando o acesso a informações sobre alcance e segmentação.
Os detalhes estão disponíveis no:
Levantamento do NetLab/UFRJ sobre anúncios políticos e desconfiança institucional.
Outra investigação do mesmo laboratório examinou o TikTok e identificou recomendações de conteúdos relacionados a candidatos no feed “Para Você”. Segundo a nota técnica do NetLab sobre o TikTok, esses resultados levantam dúvidas sobre o cumprimento das regras eleitorais de recomendação orgânica.
A relevância do caso está no funcionamento da plataforma: o usuário pode receber um conteúdo político sem ter procurado pelo candidato ou sequer seguido seu perfil. A recomendação altera a possibilidade de aquele material ser visto, ainda que não determine como a pessoa irá interpretá-lo.
O TSE também estabeleceu regras para conteúdos produzidos ou manipulados por inteligência artificial. Em setembro de 2026, por exemplo, a Corte definiu critérios para caracterizar deepfakes em propaganda eleitoral, incluindo conteúdos sintéticos realistas que criam ou alteram imagens, vozes ou manifestações de pessoas. As regras procuram reduzir riscos de manipulação e desinformação durante a disputa. A decisão pode ser consultada no site oficial do TSE.
Esses casos não autorizam concluir que uma plataforma apoia deliberadamente determinado candidato, muito menos que seus algoritmos decidiram o resultado eleitoral. Influenciar a distribuição de informações não é o mesmo que determinar o voto. Para estabelecer uma relação causal desse tipo, seriam necessárias evidências específicas sobre o comportamento dos eleitores e os efeitos das recomendações.
Ainda assim, existe uma preocupação legítima: quando poucas empresas controlam uma parte significativa do ambiente informacional, suas decisões técnicas passam a ter consequências políticas. Essa concentração de poder merece fiscalização, transparência e debate público, independentemente de qual partido seja beneficiado ou prejudicado em uma situação específica.
Por isso, o debate não deveria se limitar à disputa entre esquerda e direita. Também precisamos discutir quem controla a infraestrutura digital pela qual milhões de brasileiros recebem informações, quais critérios orientam esse controle e como a sociedade pode fiscalizá-lo.

Para quem está avaliando os candidatos no segundo turno de 2026, vale consultar também nosso guia sobre Em quem votar em 2026, comparar propostas e verificar informações em fontes diferentes, em vez de depender apenas do conteúdo recomendado pelas redes sociais.
No fim, a tecnologia não eliminou a liberdade de escolha. Mas mudou o ambiente no qual ela acontece.
A democracia depende da liberdade de escolha, mas essa escolha ocorre em um ambiente digital no qual empresas privadas têm grande poder para decidir o que milhões de pessoas veem e o que quase nunca chega até elas.
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